domingo, 25 de agosto de 2013

Engenheiros no Estrangeiro


A 4 de Abril de 2013, recebi (eu e todos os engenheiros espalhados por esse mundo fora, inscritos) o seguinte mail da Ordem dos Engenheiros de Portugal:

" (...) Assim, a OE apresenta todo o interesse em conhecer a sua experiência profissional, com a certeza de que a sua publicação na Área Internacional do portal da OE será uma mais-valia para todos membros que atualmente apresentam interesse em seguir um caminho semelhante.



Para participar nesta iniciativa poderá enviar um texto livre que exemplifique aos restantes membros questões tais como:

- Habilitações Académicas;

- País de estabelecimento;

- Breve descrição das funções desempenhadas, assim como das Entidades/Organizações integradas;

- Experiência quanto ao processo de recrutamento para o estrangeiro;

- Informações úteis sobre o reconhecimento da profissão e estabelecimento no País em que se encontra;

- Disponibilização de contactos para criação de uma rede internacional de Engenheiros Portugueses e publicação no portal da OE;

- Disponibilização de contactos importantes na internacionalização no País;

- Lista de vantagens e desvantagens relativas ao País em que se encontra, bem como da forma como venceu eventuais dificuldades.



Para efeitos de ilustração, solicitamos também o envio de algumas fotografias e/ou vídeos representativos da atividade, assim como do País em que se encontra."

Quatro meses depois, verifico que o que eu previ na minha resposta à OE se mantém: apenas dois testemunhos. Ver aqui.

A minha resposta à OE, a 14 de Abril de 2013:

"Exmos. Srs., Exmas. Sras.:

Venho por este meio responder ao E-mail que recebi da Ordem dos Engenheiros, relativamente ao novo projecto que pretendem desenvolver.

Folgo em saber que existe, por parte da OE, a intenção de ajudar os seus membros na sua integração no mercado de trabalho internacional.

De facto, só quem passa pela experiência de emigrante, compreende o seu verdadeiro significado. Por isso aqui deixo alguns comentários sobre o assunto:

1.      Os que saíram de Portugal para trabalharem no estrangeiro, fizeram-no por não terem outra opção (felizmente não foi o meu caso, pois há cinco anos tive o “privilégio” de me poder despedir para ir em busca de um sonho, o de trabalhar no estrangeiro). Deixaram família, amigos, o seu lar, o seu ambiente, para ganharem dinheiro no sentido de poderem continuar a cumprir com as suas responsabilidades financeiras como renda, alimentação da família, educação dos seus filhos, etc. Posso dizer-lhes, com toda a certeza, de que muitos (a maioria) saíram de Portugal desiludidos com o seu país (muitos dizem mesmo que não voltarão). Na altura, “fizeram-se à vida” sozinhos. Informaram-se, arriscaram, lutaram. Tudo isto sozinhos. À tristeza, somou-se frustração, por ninguém ter estado “lá” para os ajudar.
               
Gostaria de saber qual a receptividade dos emigrantes portugueses por esse mundo fora, a esta proposta da OE para colaboração. Eu tenho um palpite: receptividade quase nula. Gostaria que a OE reflectisse sobre a seguinte questão: “Se na altura ninguém nos ajudou a encontrar emprego noutro país, porque razão, ajudaríamos nós, agora, outros colegas que nos são desconhecidos?”. É triste, mas este comportamento é humano.

2.      Os que saíram, estando por sua conta e risco, “queimaram muitas pestanas” em busca da informação correcta em relação ao país para onde tinham decidido emigrar, a situação do mercado de trabalho, como redigir um CV apropriado (bem como carta de apresentação, certificações, etc.), como obter ajudas sociais no caso de ser necessário, curso da língua do país, e por aí fora. Muitos meses foram gastos neste processo. É sim, um trabalho a tempo inteiro, sentado ao computador a maioria das vezes doze a treze horas por dia, sete dias por semana. É um longo trabalho de casa a fazer… Poder-se-ia dizer, que todos nós, os que passaram por esse processo, estamos aptos a escrever uma dissertação sobre “como procurar e conseguir trabalho no país X”.

Gostaria que a OE reflectisse igualmente noutra questão: “Porque razão, enviaria eu um documento à OE, sobre a minha aprendizagem de quatro anos, relativa a como arranjar emprego na Alemanha?”. Eu fiz o meu trabalho de casa. Durante quatro anos! Poderia até, como já referi, escrever uma dissertação sobre o assunto. Se eu “queimei muitas pestanas” sobre o assunto, porque razão, daria eu de livre vontade todo este meu conhecimento? É que se existe alguém que sabe o valor desse meu conhecimento, esse alguém, sou eu. Foram meses da minha vida, e que agora me sugerem que resuma num documento de algumas páginas…

3.      Algo que aprendemos, nós os que procuraram meses a fio por uma oportunidade de trabalho no estrangeiro, está relacionado com o facto de como o mundo é pequeno. Neste campo, o segredo continua a ser a alma do negócio. Qualquer oferta de trabalho que surgisse, era guardada e estudada em segredo, sendo partilhada apenas quando se sabia do resultado de uma entrevista: “Consegui o tal trabalho!” ou “Epá, não fiquei com o trabalho…”. É guerra. Porque para além de estarmos a concorrer com conterrâneos (portugueses), concorremos também com os nativos que possuem uma grande vantagem: falam a língua do país.

Se é guerra, porque hei-de eu entregar armas valiosas, a quem no futuro poderá roubar-me uma oportunidade de trabalho?

4.      Posso dizer que agora, quatro anos depois de chegar à Alemanha e estar a trabalhar na segunda maior produtora de energia alemã, num dos projectos mais inovadores da actualidade no sector da energia eólica em mar, o desemprego não me assusta. Porque sei que possuo todas as armas para voltar à luta e conseguir um trabalho. Mas repito, quatro anos depois. Quatro anos de aprendizagem de uma nova língua e de uma nova cultura. Quatro anos de trabalhos com contractos precários e de insegurança financeira.

Eu fiz o meu trabalho de casa durante quatro anos. Uma coisa é a OE interessar-se por testemunhos de emigrantes sobre a sua vivência num país estrangeiro, com o objectivo de alertar para problemas que poderão, os que pretendem emigrar, ter de vir a enfrentar. Outra coisa, totalmente diferente, é a OE querer obter (sem grande esforço) informação (processo de recrutamento, candidatura, contactos) que pode facilmente encontrar nos meios livres de comunicação de hoje em dia: a Internet.
Parece-me que a OE não se apercebeu do “quanto” está a pedir aos seus membros.


Relativamente aos pontos referidos no E-mail da OE, aqui ficam algumas questões:

“Informações úteis sobre o reconhecimento da profissão no País em que se encontra” – Tratado de Bolonha? Não houve na altura qualquer contacto ou discussão sobre o assunto entre as universidades e as ordens?

"Contactos para criação de uma rede internacional de Engenheiros Portugueses" – O que não faltam são redes de contactos na Internet: Xing, LinkedIn, The Star Tracker, etc. Querem criar mais uma? Porque não desenvolver protocolos com as já existentes?

"Disponibilização de contactos importantes na internacionalização no País" – Mas, não existem já entidades responsáveis e pagas para tal? Ministério da Economia e do Emprego, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ministério da Educação?


Mas não se pense que deixarei de colaborar neste projecto. Em seguida deixo alguns comentários e respectivas sugestões que poderão ser úteis à OE, de modo a auxiliar melhor os nossos colegas que pretendam sair de Portugal em busca de uma vida profissional melhor:

*      A inadequabilidade da documentação fornecida pela OE, para efeitos de candidatura a uma oferta de trabalho, num país estrangeiro. Cada país tem a sua forma de execução de documentação (declarações e certificados). Num país como a Alemanha, um documento deve ser de fácil e compreensível leitura, e para isso deve apresentar um texto que não exceda três parágrafos, devendo os próprios parágrafos ser curtos. Sugiro, por isso, que na Declaração de Membro Efectivo da OE em inglês, como se encontra redigido actualmente, os segundo e quinto parágrafos sejam eliminados, e que os restantes sejam mais curtos, evitando o palavreado normal e aceite em Portugal, mas de difícil leitura e compreensão num ambiente internacional. Não são os outros países que se têm de adaptar a nós, somos nós (devido à conjuntura actual financeira do país) que nos temos de adaptar aos outros países, tornando a nossa documentação o mais simples possível de compreender.

*      A adequada apresentação dos documentos (referente ao ponto anterior) não se restringe apenas aos da OE. Documentos de outras entidades como escolas secundárias, universidades, entidades de formação, etc., são igualmente vitais para uma candidatura a um emprego no estrangeiro. Sugiro que a OE sirva de elo de ligação entre estas entidades e o mercado de trabalho internacional, tomando a iniciativa de liderar o processo de regularização da apresentação em inglês da documentação fornecida por essas entidades. Entendo por regularização da apresentação da documentação em inglês, uma lista de regras a seguir: parágrafos sucintos e claros na sua mensagem. O primeiro passo seria entender como os outros países o fazem e encontrar um formato adaptado que seja geral e adequado para qualquer país.

*      Quotas anuais. Há cinco anos que saí de Portugal. Há cinco anos que pago as quotas da OE. Embora ache a Ingenium uma revista de grande qualidade (obrigada à OE por ma enviar para Alemanha sem me cobrar portes de envio extra por eu me encontrar fora de Portugal!), penso que 120€ anuais pela recepção de uma revista mensal é um pouco exagerada. Sugiro, por isso, uma redução do valor das quotas anuais para emigrantes, já que não usufruímos de quaisquer outros privilégios ou serviços da OE. Aproveito para sugerir um valor simbólico de quotas (5 € anuais) para quem se encontrar desempregado (1).

*      O tal trabalho de casa que nós, os emigrantes, tiveram de fazer durante meses, poderá ser igualmente feito pela OE. Existindo um grande número de engenheiros desempregados em Portugal, sugiro que a OE contrate (por concurso aberto a todos!) dois engenheiros para executarem tal pesquisa e recolha de informação. Sugiro dois, pois para além de ser recolhida, a informação tem de ser analisada e adequada às exigências do mercado internacional de trabalho de cada país (para além de que, “duas cabeças sempre pensam melhor que uma”). Tenho a certeza que a tarefa desempenhada por esses dois engenheiros será de forma motivada, inovativa, competente e dedicada. Basta escolher os candidatos certos.

Relativamente ainda aos quatro pontos iniciais (de 1. ao 4.), gostaria de mencionar que, felizmente, nem todos pensamos da mesma maneira, como podem verificar no seguinte endereço electrónico: http://dicastrabalhoalemanha.blogspot.de/

A ideia de auxiliar e inspirar outros a tomarem a decisão de arriscarem em busca de uma vida profissional melhor, não é nova e muito menos reservada à OE. Nós, emigrantes, temos sido bombardeados com propostas para participar em programas televisivos, jornais e revistas, e até livros / guias para portugueses que queiram sair do país. Mas antes de todas estas entidades nos contactarem, muitos de nós já tinham tomado a mesma iniciativa há uns anos atrás, partilhando a sua experiência na Internet. O endereço electrónico acima refere-se ao blogue “Dicas sobre trabalho na Alemanha” e é da minha autoria. Pode e deve a OE usá-lo como fonte de informação, porém é expressamente interdita qualquer cópia, reprodução, difusão ou transmissão, utilização, modificação, venda, publicação, distribuição ou qualquer outro uso, total ou parcial, comercial ou não comercial, quaisquer que sejam os meios utilizados, salvo com a minha autorização.

Cordialmente,

Ana" 

(1) Quando redigi a resposta desconhecia que existe isenção de pagamento de cotas para quem está desempregado.





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