quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Hoje fui para o trabalho assim:
- "Bom dia, Sr. Ana. Hoje temos para si um Audi A3 Cabrio. Divirta-se e aproveite!"
- "Ah... Isso é um carro rápido, é?"
p.s.: A ignorância é algo que nos pode trazer boas surpresas :)
domingo, 22 de julho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
O dia-a-dia no estaleiro
Oito
da manhã, e o escritório já bomba com telefones a tocar, fotocopiadora a
trabalhar, pessoal a vestir o equipamento de segurança, portas a abrir e
a fechar. Nove da manhã, reunião diária com todos os departamentos:
fundações, turbinas eólicas, cablagem eléctrica, logística marítima.
Meio-dia,
almoço na cantina rico em gordura e molhos, um verdadeiro banquete para
os que trabalham no porto no transporte de mercadorias. Depois de
almoço, reuniões e mais reuniões. Quatro da tarde, tempo para uma pausa e
bebe-se um café ou um chá. Cinco da tarde, os olhos começam a fraquejar
em frente ao computador. Mas ainda faltam duas horas até todo o pessoal
ter despachado as suas tarefas (afinal, queremos esperar uns pelos
outros para jantarmos juntos). Sete da tarde, "Então, onde vamos
jantar?". Oito e meia da noite, despachado o jantar em mais um
restaurante, alguém anuncia "A I. convidou-nos a ir beber umas cervejas a
casa dela. Passamos lá a caminho do hotel?". Uma da manhã, aterramos na cama.
No dia seguinte, recomeça tudo de novo. O despertador toca às sete menos um quarto. Sete e um quarto tomamos pequeno-almoço juntos no restaurante do hotel. Meia hora para comermos e falarmos de algo sem ser de trabalho. "Daqui a dez minutos na recepção. Vou só lavar os dentes." Oito menos um quarto entramos no carro e todos se queixam que precisavam de ter dormido um pouco mais. "Vai ser hoje!", prometemos todos e do banco de trás sai uma gargalhada.
No dia seguinte, recomeça tudo de novo. O despertador toca às sete menos um quarto. Sete e um quarto tomamos pequeno-almoço juntos no restaurante do hotel. Meia hora para comermos e falarmos de algo sem ser de trabalho. "Daqui a dez minutos na recepção. Vou só lavar os dentes." Oito menos um quarto entramos no carro e todos se queixam que precisavam de ter dormido um pouco mais. "Vai ser hoje!", prometemos todos e do banco de trás sai uma gargalhada.
domingo, 3 de junho de 2012
Diálogo entre dois emigrantes
Emigrante alemão a viver no Reino Unido: - "Depois de dois anos a viver no Reino Unido, concluo que os ingleses são pessoas muito estranhas..."
Emigrante portuguesa a viver na Alemanha: - "Depois de cinco anos a viver na Alemanha, para mim, os alemães é que são pessoas muito estranhas. E conheço uma emigrante alemã a viver em Portugal que diz que os portugueses também são muito estranhos..."
E fez-se silêncio.
Emigrante portuguesa a viver na Alemanha: - "Depois de cinco anos a viver na Alemanha, para mim, os alemães é que são pessoas muito estranhas. E conheço uma emigrante alemã a viver em Portugal que diz que os portugueses também são muito estranhos..."
E fez-se silêncio.
domingo, 22 de abril de 2012
São mesmo uma delícia!
As minhas idas ao estaleiro, na cidade portuária onde passaremos a atracar o nosso "barco-plataforma" para construirmos as torres eólicas, são sempre cheias de boa disposição. A camaradagem é mesmo "de obra" (quem é / foi director de obra, sabe do que falo!). Tirando a cena de cada um trabalhar para si...
Desta vez, decidi levar uma prendinha para os trinta colegas: pastelaria portuguesa. Comprei uns bolos e cortei-os de tal maneira a parecerem vários mas em miniatura ;) Distribui numa travessa e deixei na cozinha, como por aqui é hábito fazer quando se traz algo que se quer partilhar com o colegas.
Deram uns cinquenta pedacinhos. Ok, quarenta e oito depois de eu comer dois :)
Passado uma hora, começo a perguntar a cada colega que encontrava casualmente no corredor, se já tinha provado os bolinhos portugueses que tinha trazido. A resposta era sempre a mesma: "Não... Já não há!"
"Como assim, já não há??? Deixei-os há uma hora na cozinha!"
Fui verificar e realmente só tinham sobrado migalhas...
Passa um colega por mim e pergunto "chegaste a provar os bolinhos portugueses?". Ao que me responde "Não. Alguns comentaram comigo que havia bolinhos lá mas eu não cheguei sequer a ver a travessa."
Passado um bocado, encontro a secretária que me diz: "Vê lá tu que fui dar com a travessa dos teus bolos na secretária do P.! Estava a comê-los sozinho e ainda teve a lata de me dizer:
São mesmo uma delícia!"
p.s.: Nada disso! O P. não é alemão. É dinamarquês :)
Desta vez, decidi levar uma prendinha para os trinta colegas: pastelaria portuguesa. Comprei uns bolos e cortei-os de tal maneira a parecerem vários mas em miniatura ;) Distribui numa travessa e deixei na cozinha, como por aqui é hábito fazer quando se traz algo que se quer partilhar com o colegas.
Deram uns cinquenta pedacinhos. Ok, quarenta e oito depois de eu comer dois :)
Passado uma hora, começo a perguntar a cada colega que encontrava casualmente no corredor, se já tinha provado os bolinhos portugueses que tinha trazido. A resposta era sempre a mesma: "Não... Já não há!"
"Como assim, já não há??? Deixei-os há uma hora na cozinha!"
Fui verificar e realmente só tinham sobrado migalhas...
Passa um colega por mim e pergunto "chegaste a provar os bolinhos portugueses?". Ao que me responde "Não. Alguns comentaram comigo que havia bolinhos lá mas eu não cheguei sequer a ver a travessa."
Passado um bocado, encontro a secretária que me diz: "Vê lá tu que fui dar com a travessa dos teus bolos na secretária do P.! Estava a comê-los sozinho e ainda teve a lata de me dizer:
São mesmo uma delícia!"
p.s.: Nada disso! O P. não é alemão. É dinamarquês :)
Iniciativa alemã
Quando me mudei para a Alemanha, vim sem quaisquer preconceitos. Ouvia em Portugal "Hii... Vais mudar-te para a Alemanha? Os gajos são distantes e frios...". Nunca liguei a esses comentários. E ainda bem.
Os preconceitos não nos deixam ver com clareza, são como palas nos olhos indicando apenas uma direcção.
Depois de alguns meses a trabalhar num ambiente maioritariamente alemão (tipo... em 50 somos 7 estrangeiros) não posso dizer que têm sido meses fáceis. Houve um ou outro mail em alemão que escrevi e que a pessoa que recebeu não percebeu; houve aquela conversa em alemão que não consegui transmitir o que precisava e tive de mudar para inglês; houve aquela indicação que não entendi bem e fiz de maneira diferente ao que se esperava; etc... Coisas normais de um imigrante! (Nada de pânico, foram situações normalíssimas na vida de um imigrante. E na verdade, os colegas reagiram bem e quase sempre até deu direito a umas gargalhadas!).
Porém, o que realmente me andava a incomodar e a dar comigo em doida, era eu não conseguir que a equipa me comunicasse a informação de que eu tinha solicitado, em diversas ocasiões. Mandava mail, pedia pessoalmente, voltava a recordar, e nada... Meses a pensar: "Que estarei eu a fazer de errado?" E depois de comentar com alguns colegas esta minha frustração, todos me respondiam "Não é nada pessoal, Ana! Temos é muito que fazer e estamos muito stressados com o trabalho...".
Embora várias tivessem sido as vezes que tivesse dito aos meus colegas de que a tarefa X era da minha responsabilidade, há três semanas atrás, apercebo-me de que estavam mais dois colegas a trabalhar nessa mesma tarefa. Na minha tarefa. Mas sem terem comunicado um ao outro de que a estavam a fazer. Sim, mesmo depois de eu, durante uns quatro meses tenha repetido que era a MINHA tarefa. E o que eu acho mais incrível é que as suas mesas de trabalho estão viradas uma para a outra!!!
Esta maneira de trabalhar, sem ser em equipa, pode transformar o dia-a-dia no escritório desgastante e frustrante... Vê-los a trabalhar cada um por si e para si, sem pensarem no Todo, nos objectivos comuns. Pensa-se no EU / MEU trabalho. E como portuguesa, que adora comunicar, se interessa pelo que cada um faz na empresa, devo dizer que a adaptação tem demorado mais tempo do que estava à espera. Mas, ao que parece não sou a única! Os próprios colegas alemães, por vezes queixam-se do mesmo, mas em relação aos outros colegas ;)
Hoje li um parágrafo numa revista sobre "international business skills" que dizia o seguinte:
"I have done many such profiles with German-speakers and have notice the low priority that they often give to flexibility of communication style. Many German-speakers see great flexibility as a sign of superficiality and "playing games". The key feedback I give them is that international partners may see this inflexibility as a sign of arrogance." (*)
Plimmm! Fez-se luz! É isto o que eu sinto no meu dia-a-dia no trabalho: uma falta de comunicação impressionante entre os colegas de equipa. Não se interessam por saber o que o colega faz ou se o trabalho que desenvolvem é útil para mais alguém. À primeira vista poder-se-ia mesmo dizer que "estão-se a marimbar para o trabalho dos outros" e o que interessa é o EU / MEU. Tal como eu pensei há dias atrás.
E depois vem uma frase como esta (*) que nos tira o peso de cima de nós. Aquele peso que nos faz pensar que estamos a fazer algo de errado, a cada nega e indiferença dos colegas.
Puf! Afinal, é mesmo uma diferença cultural. São assim, faz parte da sua maneira de ser, da sua cultura, e só depois de entendermos e aceitarmos isso, podemos ver as mesmas situações de outra perspectiva: "Ok, não foi nada de errado que escrevi no mail, não foi nada de errado que eu disse na reunião, não foi o não ter sorrido naquela manhã. É assim que funcionam".
No fim disto tudo tenho a dizer que, por alguma razão se criam os preconceitos. O importante é o que fazemos com eles, a importância que lhes damos. NÃO julgar tem sido uma regra de ouro na minha vida que eu quero continuar a manter. A "ideias preconcebidas" podem-nos ajudar a entender melhor o Outro, neste caso, uma outra cultura. Mas não nos dá o direito de julgar apenas pela negativa. Há que aceitar e sermos cada vez mais flexíveis, tolerantes. Esse é o caminho que acredito que tem de ser feito.
E mais há a dizer! Admiro nestes "gajos" pela a iniciativa que têm. Aliás, a situação de estarem três pessoas a trabalharem na mesma tarefa, sem ninguém saber, deve-se a esse facto. Não esperam por ninguém para lhes dizer o que têm de fazer. Nisso, temos de "lhes tirar o chapéu" e dizer: tivéssemos um pouco mais disso em nós, e o hífen já nao era necessário "tirar-se"!
Os preconceitos não nos deixam ver com clareza, são como palas nos olhos indicando apenas uma direcção.
Depois de alguns meses a trabalhar num ambiente maioritariamente alemão (tipo... em 50 somos 7 estrangeiros) não posso dizer que têm sido meses fáceis. Houve um ou outro mail em alemão que escrevi e que a pessoa que recebeu não percebeu; houve aquela conversa em alemão que não consegui transmitir o que precisava e tive de mudar para inglês; houve aquela indicação que não entendi bem e fiz de maneira diferente ao que se esperava; etc... Coisas normais de um imigrante! (Nada de pânico, foram situações normalíssimas na vida de um imigrante. E na verdade, os colegas reagiram bem e quase sempre até deu direito a umas gargalhadas!).
Porém, o que realmente me andava a incomodar e a dar comigo em doida, era eu não conseguir que a equipa me comunicasse a informação de que eu tinha solicitado, em diversas ocasiões. Mandava mail, pedia pessoalmente, voltava a recordar, e nada... Meses a pensar: "Que estarei eu a fazer de errado?" E depois de comentar com alguns colegas esta minha frustração, todos me respondiam "Não é nada pessoal, Ana! Temos é muito que fazer e estamos muito stressados com o trabalho...".
Embora várias tivessem sido as vezes que tivesse dito aos meus colegas de que a tarefa X era da minha responsabilidade, há três semanas atrás, apercebo-me de que estavam mais dois colegas a trabalhar nessa mesma tarefa. Na minha tarefa. Mas sem terem comunicado um ao outro de que a estavam a fazer. Sim, mesmo depois de eu, durante uns quatro meses tenha repetido que era a MINHA tarefa. E o que eu acho mais incrível é que as suas mesas de trabalho estão viradas uma para a outra!!!
Esta maneira de trabalhar, sem ser em equipa, pode transformar o dia-a-dia no escritório desgastante e frustrante... Vê-los a trabalhar cada um por si e para si, sem pensarem no Todo, nos objectivos comuns. Pensa-se no EU / MEU trabalho. E como portuguesa, que adora comunicar, se interessa pelo que cada um faz na empresa, devo dizer que a adaptação tem demorado mais tempo do que estava à espera. Mas, ao que parece não sou a única! Os próprios colegas alemães, por vezes queixam-se do mesmo, mas em relação aos outros colegas ;)
Hoje li um parágrafo numa revista sobre "international business skills" que dizia o seguinte:
"I have done many such profiles with German-speakers and have notice the low priority that they often give to flexibility of communication style. Many German-speakers see great flexibility as a sign of superficiality and "playing games". The key feedback I give them is that international partners may see this inflexibility as a sign of arrogance." (*)
Plimmm! Fez-se luz! É isto o que eu sinto no meu dia-a-dia no trabalho: uma falta de comunicação impressionante entre os colegas de equipa. Não se interessam por saber o que o colega faz ou se o trabalho que desenvolvem é útil para mais alguém. À primeira vista poder-se-ia mesmo dizer que "estão-se a marimbar para o trabalho dos outros" e o que interessa é o EU / MEU. Tal como eu pensei há dias atrás.
E depois vem uma frase como esta (*) que nos tira o peso de cima de nós. Aquele peso que nos faz pensar que estamos a fazer algo de errado, a cada nega e indiferença dos colegas.
Puf! Afinal, é mesmo uma diferença cultural. São assim, faz parte da sua maneira de ser, da sua cultura, e só depois de entendermos e aceitarmos isso, podemos ver as mesmas situações de outra perspectiva: "Ok, não foi nada de errado que escrevi no mail, não foi nada de errado que eu disse na reunião, não foi o não ter sorrido naquela manhã. É assim que funcionam".
No fim disto tudo tenho a dizer que, por alguma razão se criam os preconceitos. O importante é o que fazemos com eles, a importância que lhes damos. NÃO julgar tem sido uma regra de ouro na minha vida que eu quero continuar a manter. A "ideias preconcebidas" podem-nos ajudar a entender melhor o Outro, neste caso, uma outra cultura. Mas não nos dá o direito de julgar apenas pela negativa. Há que aceitar e sermos cada vez mais flexíveis, tolerantes. Esse é o caminho que acredito que tem de ser feito.
E mais há a dizer! Admiro nestes "gajos" pela a iniciativa que têm. Aliás, a situação de estarem três pessoas a trabalharem na mesma tarefa, sem ninguém saber, deve-se a esse facto. Não esperam por ninguém para lhes dizer o que têm de fazer. Nisso, temos de "lhes tirar o chapéu" e dizer: tivéssemos um pouco mais disso em nós, e o hífen já nao era necessário "tirar-se"!
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domingo, 15 de abril de 2012
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