Não sei se sabem, mas eu não tenho (tinha ;) ) muito à vontade com a água (o R. faz mergulho e eu sempre me recusei a aprender por achar que me ia passar lá em baixo, com cenas na boca para respirar envolvida por vários m3 de água. Por isso, enquanto ele mergulhava por mares da Tailândia e Indonésia, eu fazia snorkling :P). Mal sabia eu o que me esperava no treino de offshore, a sério...
Tudo começa com testes para ver qual a nossa capacidade de nos aguentar debaixo de água, contendo a respiração: atravessar a piscina (10 m?) de uma ponta à outra agarrada a uma corda que está presa ao fundo sustendo a respiração (e chegar à corda?) - testam se aguentas pelo menos um minuto debaixo de água (consegui em 50 segundos, puf! Passei!).
A seguir, pedem-nos para colocar as pernas (parte de trás dos joelhos, de barriga para cima) sobre uma barra metálica que está à superfície (isto dentro da piscina!). Com um colete salva-vidas que tem um saco e um bocal que usas para respirares (ar que inspiraste e expiraste lá para dentro), empurram-te o corpo para baixo (o tronco roda em torno da tal barra pelas pernas) e tens de aguentar também cerca de um minuto (depois de duas tentativas lá consegui).
A questão é que ninguém nos explicou o que íamos fazer. Íamos sabendo à medida que nos mandavam. Não sei se foi de propósito, para não entrarmos em pânico e desistirmos, ou quê... Se eu soubesse o que teria de fazer, não sei se teria ido :D Ou se calhar até explicavam mas como foi tudo em alemão…
Adiante!
Depois, temos de saltar em queda livre cinco metros, de olhos fechados, e a "abraçar" o nosso tronco (posição de protecção) - opá, eu não sei como é com vocês, mas eu achei horrível a sensação de nos "deixarmos cair" para a água! Tivemos que fazer duas vezes em dois exercícios diferentes... Eu só dizia entre os dentes, mas alto o suficiente para me ouvir a mim mesma "Ai mãezinha... Ai Ana no que te meteste. F***** e m**** para esta cena. Pronto, é fechar os olhos e sal-taaaaaaaaaaar....!". Depois de vir ao de cimo e conseguir respirar: "Pronto, eu estou calma, Ana, já passou...!"
Aquela piscina tinha de tudo para simular acidentes no pior cenário: o tal helicóptero, luzes desligadas (noite), luzes intermitentes (relâmpagos / tempestade), ventoinhas poderosíssimas (ventos fortes / aproximação do helicóptero), gotas de água vindas de cima (chuva), enfim... O penúltimo exercício era simular um resgate nessas condições. Ai mãe, aí uma pessoa pensa: foge, isto não é para "meninos"!
Todos os exercícios foram feitos de olhos fechados por duas razões: num acidente pode haver derramamento de óleos ou outros produtos tóxicos e ajuda a não ficarmos completamente desorientados na cena do helicóptero.
Eu sou sincera, não achei "piada" nenhuma ao treino. Piada no sentido de "fixe" e tal, "férias radicais e tal e ainda te pagam para tal" (como escreveram no FB). Os meus colegas estavam muito mais à vontade e até se estavam a divertir. Nós, as duas únicas mulheres, desabafámos no balneário na primeira oportunidade "eu só quero ir para casa...!". O meu colega bem dizia: "Ana, se te divertires, é muito mais fácil!", e eu: "Meu! Estamos a treinar para um caso de emergência!!! Divertir???"
Porém, algo de muito importante me apercebi. O nosso instinto de sobrevivência funciona :) O que me alegra imenso saber. Até eu, que nunca fiz desporto (e nem sei o que é isso :P) também tenho um instinto de sobrevivência. A primeira vez que "sobrevivi" ao exercício do helicóptero (depois de eu chegar à superfície da água, o meu treinador me agarrar pelo colarinho do fato, e dizer que eu tinha de repetir o exercício, porque tinha saído depressa demais do helicóptero... "Ana! Tens de esperar!!! Que o helicóptero afunde mais!" e eu "Como assim?" e ele "Até não se ouvir mais bolhinhas de ar! Vamos repetir!" e eu em voz alta "pqp o raio do homem e este exercício!"), pensei, isto é mau, mas sobrevivi. Sorte? Talvez…
Da segunda vez pensei "Ok, dois de seis exercícios já cá cantam! Um terço, um terço dos exercícios estão feitos!". Ao terceiro exercício, correu tão bem e tão suavemente, que cheguei à tona da água e pensei "Ah... Afinal, não é assim tão mau. As primeiras duas vezes é que se estranha".
Logo a seguir, no quarto exercício, fiquei tão contente por saber que 2/3 dos exercícios estavam feitos (mais de metade!) que quando vim ao de cimo pus o braço no ar com os quatro dedos em posição, e em seguida, baixei-o com velocidade enquanto dizia (com os treinadores a olharem para mim a rirem-se) "FOUR! Number four!! Just TWO to go! YES!"
Nisto tudo, se no princípio estava preocupada em ter de repetir este treino daqui a dois anos, depois de descobri que afinal só se tem de fazer o treino de quatro em quatro anos, passei a ficar apreensiva: "como assim, repetir estes exercícios só daqui a quatro anos? Vou-me esquecer de tudo até lá!"
Ah! E esqueçam lá eu ter ou poder salvar alguém em caso de acidente. Eu? Salvar alguém com 100kg?? Já salvarem-me a mim, é outra história... Eu sou apenas um "saquito de 52kg de peso" ;) A mim, qualquer trinca-espinhas salva.
Já vos contei que os treinadores eram quase todos ex-militares do exército alemão? Agora podem imaginar a força que senti no pescoço quando o meu treinador me puxou pelo colarinho para eu repetir o exercício. Acho que aí, foi a única vez que me senti a quase a afogar :D A primeira foi quando fizemos o exercício de virar a tenda flutuante ao contrário e que temos de nos deixar cair para trás, agarrando-a, e esperar que ela nos caia em cima. Tipo sanduiche: água, eu e por cima a tenda. Literalmente. Epá, mas as restantes histórias ficam para a próxima.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
E no fim...
Nas minhas voltas aos baús, encontrei este chat com o meu primo.
Data: 10/10/2007 (ano em que me mudei para Hamburgo)
Adbc: - “É um começar
de novo.”
Ana: - “Sem data
para terminar. E depois, quando te apetecer começar de novo noutro sítio?”
Adbc: - “Mas a
vida é isso. Viver um dia de cada vez, o melhor que se pode.”
Ana: - “A Austrália
é longe…”
Adbc: - “Mas
facilmente se fazem amigos. É tudo uma questão de rotina.”
Ana: - “Depois de
se saborear amizades de 28 e 18 anos… Como se de vinhos se tratasse: existem amigos
e Amigos tal como existem vinhos e Vinhos.”
Adbc: - “Sim, é
diferente.”
Ana: - “Lembro-me
do primo L. dizer algo que me fez realmente pensar: conhecidos tenho imensos. Mas amigos que te compreendem e sabem o
que pensas e o que vais dizer mesmo antes de abrir a boca, já é diferente. É
muito bom ter Amigos.”
Adbc: - “Mas
lembra-te de que quando deixas os Amigos num sítio para ires para outro sítio,
eles não te acompanham. Eles fazem como as viúvas: choram. E depois quando
voltas, também tu não os acompanhaste. Eles evoluíram noutro sentido que não o
teu e tu ficas única por isso.”
Ana: - “Eu já
sinto isso! Muita coisa acontece com esses Amigos e eu não vivo as coisas com
eles. Contam-me depois… E faz-me pensar: Será
que vale a pena?
Adbc: - “Depende
de cada um. Mas digo-te que vale a pena.”
Ana: - “Enquanto
o bom superar o mau, vou ficando por aqui.
Adbc: - “Perdes
uns, mas ganhas outros. E no fim, tens todos!”
Ana: - “E no fim?”
Adbc: - “Quando
fizeres as contas vai ser só a somar. Nada de subtracções. O fim é quando
quiseres ir a algum sítio África, Ásia, Oceânia, sei lá! Mas sabes que no fundo
podes contar com toda a gente a quem já chamaste Amigo. E que provavelmente
continuas a chamar, apenas não tão frequentemente.”
Ana: - “Mas a
Terra é tão pequena e tão grande ao mesmo tempo, que talvez queiras sempre mais
e mais e no fim, bem espremidinho, sobram apenas recordações.”
Adbc: - “É. Os
momentos.”
Ana: - “Mas é
disso que somos feitos, certo?”
Adbc: - “São esses
que valem a pena.”
Adbc: - “…”
Adbc: - “Yap…”
Ana: - “Yap.”
Adbc: - “No fim é
sempre a somar.”
Ana: - “Isso.
Nada de subtracções.”
domingo, 3 de março de 2013
Elite Young Immigrants
Artigo no Spiegel sobre a imigração na Alemanha. Definitivamente, a ler!
http://www.spiegel.de/international/germany/elite-young-immigrants-could-provide-future-stability-for-german-economy-a-885647.html
sábado, 23 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Anita vai a Husum
Foi há um ano. O fato e a camisa encontravam-se lavados e pendurados na cadeira do quarto. Os sapatos pretos, novamente limpos, ao lado da porta do quarto. A mala (de cortiça!) com tudo o que poderia vir a precisar: bilhete de comboio, bilhete de entrada, CV em formatos A4 e flyer, listas das empresas a contactar, lista das pessoas das empresas a quem me dirigir.
Aquele nervoso miudinho na barriga: "EU, na maior feira mundial de energia eólica, apresentar-me a empresas, para conseguir um trabalho...?"
Aquela insegurança: "EU, uma directora de (pequenas) obras, com apenas dois anos e meio de experiência, numa feira alemã, para arranjar trabalho?"
Aquele medo: "EU, que nem bem alemão falo... Como é que eu me vou apresentar? Ai mãe...!"
Mas principalmente, aquela certeza: tem tudo para dar errado, mas também tem tudo para dar certo! Eu vou, e vou com TUDO!
Um ano depois, repito a viagem. Mas ainda faltam quatro dias. O fato e a camisa continuam lavados e pendurados, mas desta vez no guarda-fatos. Os sapatos ainda se encontram na caixa de cartão (espero que estejam limpos!). A mala, essa, não falha: acompanha-me em todas as minhas "viagens de negócios", e desta vez ainda está vazia. O bilhete de entrada encontra-se algures na carteira, entre as chaves de casa, porta-moedas, telemóveis, etc... As listas? Dei hoje uma olhadela no site, as mesmas empresas de sempre: Repower, Gamesa, Vestas, Nordex, e por aí fora!
Um ano passou e desta vez irei à mesma feira, mas não há procura de trabalho. Vou, simplesmente, a trabalho. Não terei de colocar máscara nenhuma nem preparar-me para vender o que quer que seja. Vou apenas. Sem pressões, sem medos, sem frios na barriga. Vou com a segurança de que foi nesta mesma feira que, há um ano, consegui. Não foi fácil. Não foi rápido. Porém, olhando para trás vejo que tudo aconteceu no timing certo :)
Ainda no escritório, depois de navegar no site da feira, desligo o computador. Pego no casaco e na carteira. Desligo as luzes e fecho a porta. Caminho pelos corredores da empresa. Lembro-me como se fosse ontem, o primeiro dia que vi aquelas paredes brancas com fotografias de torres eólicas. Desço os seis andares pelas escadas e aprecio a paisagem. O Parque da cidade começa a dar sinais da chegada do Inverno. Não importa. Consegui. Consegui o que me propus a fazer quando me mudei para a Alemanha. Por agora só tenho que agradecer pela vida que levo. Obrigada!
Aquele nervoso miudinho na barriga: "EU, na maior feira mundial de energia eólica, apresentar-me a empresas, para conseguir um trabalho...?"
Aquela insegurança: "EU, uma directora de (pequenas) obras, com apenas dois anos e meio de experiência, numa feira alemã, para arranjar trabalho?"
Aquele medo: "EU, que nem bem alemão falo... Como é que eu me vou apresentar? Ai mãe...!"
Mas principalmente, aquela certeza: tem tudo para dar errado, mas também tem tudo para dar certo! Eu vou, e vou com TUDO!
Um ano depois, repito a viagem. Mas ainda faltam quatro dias. O fato e a camisa continuam lavados e pendurados, mas desta vez no guarda-fatos. Os sapatos ainda se encontram na caixa de cartão (espero que estejam limpos!). A mala, essa, não falha: acompanha-me em todas as minhas "viagens de negócios", e desta vez ainda está vazia. O bilhete de entrada encontra-se algures na carteira, entre as chaves de casa, porta-moedas, telemóveis, etc... As listas? Dei hoje uma olhadela no site, as mesmas empresas de sempre: Repower, Gamesa, Vestas, Nordex, e por aí fora!
Um ano passou e desta vez irei à mesma feira, mas não há procura de trabalho. Vou, simplesmente, a trabalho. Não terei de colocar máscara nenhuma nem preparar-me para vender o que quer que seja. Vou apenas. Sem pressões, sem medos, sem frios na barriga. Vou com a segurança de que foi nesta mesma feira que, há um ano, consegui. Não foi fácil. Não foi rápido. Porém, olhando para trás vejo que tudo aconteceu no timing certo :)
Ainda no escritório, depois de navegar no site da feira, desligo o computador. Pego no casaco e na carteira. Desligo as luzes e fecho a porta. Caminho pelos corredores da empresa. Lembro-me como se fosse ontem, o primeiro dia que vi aquelas paredes brancas com fotografias de torres eólicas. Desço os seis andares pelas escadas e aprecio a paisagem. O Parque da cidade começa a dar sinais da chegada do Inverno. Não importa. Consegui. Consegui o que me propus a fazer quando me mudei para a Alemanha. Por agora só tenho que agradecer pela vida que levo. Obrigada!
domingo, 2 de setembro de 2012
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